"Caras alunas,
Entendo perfeitamente o que dizem, pois sei o quanto os conhecimentos - sobretudo, certos conhecimentos - nos abrem horizontes, nos mostram coisas e uma vida que, certamente, antes não conhecíamos - ao menos, não deste modo! Porém, a perda de inocência intelectual cobra seu preço, e, nesse caso, não temos como devolver o "produto" adquirido (Lembrem-se do Fausto, de Goethe, e o implacável Mefistófeles). Temos, isto sim, de fazer o possível para pagar a fatura, pois, inevitavelmente, sentiremos o desejo, a necessidade, de contrair novas e novas dívidas. No caso de vocês, os argumentos contrários às idéias que passaram a acalentar se ampliarão, assim como as dúvidas. Do mesmo modo, a angústia jamais cessará, pois a realidade é dinâmica e os desafios são imensos. Na verdade, não se trata de eliminá-la, pois seu fundamento não é meramente subjetivo, ele se encontra na complexa processualidade da realidade na qual estamos inseridos, e, é claro, na posição e no modo pelo qual nos relacionamos com ela - como indivíduos e como gênero. Trata-se, isto sim, de não deixar-se consumir por ela, mas senti-la como uma chama que alimenta nossa indignação contra a injustiça, a iniqüidade, a indiferença e a ignorância. Devemos, como diz Rosa Luxemburgo, tentarmos a serenidade possível, como Goethe - e como ela, grande mulher! -, mas manter a serenidade em tempos insanos não é fácil. Como dizia um grande filósofo brasileiro, J. Chasin: "Em tempos obscuros como o nosso, manter a serenidade intelectual é um ato revolucionário!" Tentemos, então, manter a serenidade, a lucidez!
Mas, vocês poderiam perguntar, adquirir o conhecimento por si só já é o suficiente? Claro que não, do mesmo modo que não é a posse de um Steinway que torna seu proprietário um pianista. A ação é sempre necessária. (Os filósofos, até o momento, limitaram-se a interpretar o mundo. Trata-se de transformá-lo! (Marx)). Porém, dizia o velho Marx, “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”.
Pensem sobre isso, quem sabe o piano fique menos pesado e, daí, saia alguma canção."
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