Imaginem uma panela de pressão:
-Insatisfação com os serviços públicos de péssima qualidade;
-Indignação diante da farra dos políticos;
-A mídia exaltando os absurdos da corrupção petista (como se a corrupção tivesse sido inventada pelo PT);
-Gastos exorbitantes com a Copa
-Alto custo de vida
O brasileiro vem insatisfeito e indignado há tempos. Mas se limitava a reclamar no sofá, diante da tv, vendo o noticiário das 9h.
O BRASILEIRO? Calma lá... QUAIS brasileiros? Os grandes proprietários, banqueiros e donos de empreiteiras é que não são...
Aliás, o PT vem garantindo os interesses dessa casta minoritária e exatamente por isso, APENAS por isso, têm se mantido no principal poder do país por tanto tempo.
Ok, quem se indigna então? A massa pauperizada, que sobrevive a trancos e barrancos, alimentada pelos programas sociais do governo? Também não. Esta é calada pelos trocados recebidos que não propiciam verdadeira melhoria nas condições de vida, apenas lhes dão o mínimo necessário para não cair na total miséria, em contrapartida, os mantém na ignorância.
Nos resta então a dita classe média e o trabalhador.
A classe média: odeia os pobres, tudo o que ela quer é distância deles. A classe média sente suas regalias ameaçadas pelos programas sociais de transferência de renda do governo (logo, odeia o PT). A classe média teme por suas míseras propriedades. No desespero de proteger seus bens, no desespero de não ser rebaixada às classes populares, emana pela sociedade suas demandas conservadoras e reacionárias: redução da maioridade penal, mais policiamento nas ruas (ROTA NA RUA), políticos corruptos DO PT na cadeia, entre outras coisas. Para ela, preto, pobre e minorias atrapalham o desenvolvimento do país. Sente-se representada pelos partidos de direita, é despolitizada e compra o discurso tendencioso da mídia burguesa.
O trabalhador: o trabalhador está basicamente nas periferias da cidade. Ele sofre diariamente com a insuficiência e péssima qualidade do transporte público, pois é ele que atravessa a cidade diariamente para chegar ao trabalho, em situação humilhante e desumana. Horas e horas são perdidas. É ele que precisa do sus, dos postos de saúde, dos hospitais públicos que não tem médico, não tem leito, não tem medicamento. São os seus filhos que estudam em escolas precárias onde falta recursos, professores e incentivo à aprendizagem. São as suas crianças que são colocadas em creches que mais parecem depósitos de crianças, sem estrutura adequada, sem materiais adequados para atender à faixa etária. São os seus jovens que não possuem espaços de laser, de cultura, de esporte nas grandes periferias; são eles que, com a precária educação primária ocupam as cadeiras das universidades privadas, de má qualidade, porque não conseguem entrar nas elitizadas universidades públicas, e, se excepcionalmente conseguem, não conseguem se manter, pois existe um custo para permanecer nessas universidades que não é garantido pelo governo. Enfim, posso ficar o dia todo listando as mazelas que são diariamente enfrentadas pelo povo, pelo contribuinte, pelo trabalhador. Esses, em sua maioria, ainda nutrem ilusões a respeito do PT, e são facilmente manipulados pela mídia.
Aí nos perguntamos: quem está nas ruas?
Num primeiro momento, os estudantes mais politizados, em sua maioria das universidades públicas (sim, porque o movimento estudantil, que agita a luta pelo passe livre, mal chega às universidades privadas da periferia). E os partidos de esquerda porque o passe livre É UMA DEMANDA DA ESQUERDA. Isso se deu até a quinta-feira fatídica na qual a polícia agiu violentamente contra os manifestantes. A partir da segunda feira o movimento se ampliou em quantidade, pois sim, A CLASSE MÉDIA resolveu sair da toca.
O processo de engorda obviamente deu muito mais força à luta. Mas a mistura de ideologias opostas, e a despolitização tomou conta das ruas, formando um GIGANTE com as feições mais bizarras e medonhas, iniciando assim um processo que pode ser preocupante.
A começar pelo repúdio à esquerda. Mas podemos entender os motivos disso...
Os mecanismos de organização dos trabalhadores, do povo pobre, são os partidos DE ESQUERDA e os movimentos sociais. Sim, minha gente. E digo mais, é fácil confundir esquerda com PT e repudiar tudo o que se diz de esquerda. Mas, como diz minha prof., não podemos jogar fora o bebê junto com a água suja do banho!!
Acontece que os partidos da esquerda brasileira são pequenos e de pouca expressão. Eles não chegam às massas, porque seu discurso parou no tempo. Eles passam grande parte do tempo brigando entre si. Eles tentam, com pouco sucesso, engordar suas fileiras militantes com um discurso quase catequisador. Não estou dizendo isso por puro achismo. Digo porque pude, em alguns momentos, acompanhar a atuação desses partidos no sindicato, no movimento estudantil e no movimento feminista. Eles discursam pelo socialismo. Céus! Com a grande campanha burguesa contra o comunismo, quem é que quer saber disso hoje em dia??? Falando, com seu linguajar muitas vezes de difícil entendimento, academicista, esses militantes parecem lunáticos, perdidos em devaneios e ilusões, aos olhos da maioria. Isso afasta as pessoas comuns, as pessoas que não estão nas academias, que desconhecem a história, que desconhecem suas origens. Definitivamente, eles não sabem dialogar com as massas! Com o trabalhador, com o jovem da periferia. Se auto-conclamam representantes da classe trabalhadora, mas não ajudam a própria classe a se reconhecer enquanto classe, tão pouco a reconhecê-los como seus representantes.
Logo, numa manifestação tomada pela classe média conservadora e com uma esquerda pífia, coisa boa não poderia dar. Os grupos de ultra-direita, fascistas, com suas palavras de ordem fáceis, logo conseguiram ganhar apoio daqueles jovens despolitizados, manipulados pela mídia, desacreditados no governo (e, logo, na esquerda), que estavam pela primeira vez nas ruas. É fácil compreender a simplificação: partidos=esquerda=PT=corrupção. Além disso, esses partidos estão distantes, e não falam a língua de quase ninguém, como eu já disse.
Aí eu concluo que, se a esquerda não acordar, não se reorganizar, não se juntar aos movimentos sociais, E VIR PARA AS PERIFERIAS DA CIDADE CHAMAR O POVO, O TRABALHADOR, A JUVENTUDE EXCLUÍDA, este gigante burro e desembestado pode transformar o sonho de vocês em pesadelo!! Essa é a hora desses partidos se aproximarem da periferia e abrirem o diálogo, pois, apesar de os trabalhadores ainda não estarem efetivamente participando dessas lutas, certamente estão antenados no que vem acontecendo e agora possuem um grande exemplo. A importante aprendizagem que a vitória desse movimento deu às pessoas foi: existe um instrumento de luta eficaz: OCUPAR AS RUAS! A esquerda precisa trazer essa discussão aos trabalhadores e juventude, precisa se apropriar das REAIS E URGENTES demandas dos trabalhadores e parar de viajar na maionese! Precisa se unificar, parar de brigar por discordânciaszinhas teóricas e vir para a prática associadas aos de baixo!
Mesmo que essa onda de protestos, pela falta de liderança, direção e foco, se perca em poucos dias, é a grande oportunidade de iniciar um processo de politização da população. É NECESSÁRIO E URGENTE QUE A ESQUERDA E MOVIMENTOS SOCIAIS FAÇAM ISSO! Ou, se deixarmos a direita, a mídia burguesa e a ignorância política dominarem, logo estaremos vivendo tempos ainda mais sombrios!!!!
UFA, desabafei.