...É mesmo mais verde??
Em dois meses de profissão, creio que já tenho a resposta, ainda que esta não possa ser completa e definitiva.
SIM, a grama do professor é mais verde e cintilante do que a dos nossos vizinhos burocratas. Claro que depende do ponto de vista de cada um, no meu caso, me identifico dez vezes mais com o jardim de que disponho hoje. Obviamente não é perfeito, mas alguns detalhes o tornam mais agradável do que o anterior. Primeiro porque a convivência com as crianças é muito mais agradável do que a convivência com os papéis e ordens superiores vindas do além-DRE. As crianças aprendem, mudam, crescem, descobrem, nos surpreendem, são cheias de novidades. As poucas novidades na secretaria eram sempre bombásticas e geralmente colaboravam para a máxima burocratização das atividades. No trabalho anterior, depois de um dia inteiro na labuta, terminava o expediente pensando "faltou ligar pra fulano, fazer o quinquenio de siclano pra amanhã, pegar a assinatura de beltrano, lançar as faltas no sistema até tal dia...". Hoje eu saio da escola: "entreguei todos são e salvos, que livro vou ler agora..." e durmo tranquila a noite toda sem me preocupar com os dias seguintes. Na secretaria os prazos nos expremem, é tudo pra ontem, cada vírgula errada era um documento que voltava, um novo tid, um novo memorando, mais demora para resolver, mais pessoas te pressionando. Enquanto professora, os registros e avaliações é o máximo de burocrático, e, creio eu, que se os entendemos como algo que faz parte do processo e importante para que acompanhemos os resultados do nosso próprio trabalho, talvez esta tarefa (um fardo para muitos professores, lembrando que são tarefas de escrita, coisa que muitos ainda tem dificuldade) se torne menos pesada. Como para mim, por sorte do destino, escrever é algo natural quase como falar (talvez até mais!), isso não será um obstáculo, pelo contrário, um exercício de escrita e observação. Enfim, o trabalho de professor de educação infantil é mais desgastante físicamente, enquanto o trabalho técnico nos exige muito mais intelectualmente, no meu caso, preocupada com tantos outros problemas, ter que pensar em papéis que depois vão para o lixo, era algo venenoso e corrosivo, eu gostaria de gastar minha mente em outras atividade intelectuais e ao final do dia não me sobrava raciocínio, isso me estressava. As crianças, enquanto estou com elas me concentro nelas, estou lá para elas, para cuidá-las e contribuir para o seu desenvolvimento e isto é gratificante, a devolutiva é imediata, e se tudo ocorreu bem, volto para a casa tranquila e bem disposta para outras atividades. Para quem me achava um tanto frustrada, entendam, a profissão enquanto atividade, apesar de seus limites e conflitos, é algo bom e de que gosto. Outra coisa é pensar educação e suas teorias, formação de professores seus alcances e limites, isto me inquieta e as respostas de que disponho me deixam sim um tanto desgostosa, mas não é algo que interfira diretamente no meu entusiasmo e vontade para com a atividade docente.
equipe docente x equipe técnica
Quanto a oposição equipe docente x equipe técnica, descobri, primeiro, que a gestão é o ponto de equilíbrio da escola, e que o diretor de escola exerce um papel que vai muito além do burocrático. A burocracia quer engoli-lo, a pressão é grande, mas é preciso que ele tenha equilíbrio o suficiente para também ser um mediador e não transferir para os outros os fardos da sua profissão, pois dele dependem a ordem e a harmonia no ambiente escolar. O seu papel o força muitas vezes a ser um legalista, mas é necessário que ele tenha antes disso principios éticos e humanos bem definidos, para saber lidar com as pessoas, mediar conflitos, contornar situações difíceis, ser justo, flexível e correto. Logo, é uma profissão muito difícil, pois requer um equilíbio e bom senso apurados. O diretor que se coloca como "gerente" enxerga a escola como uma empresa e os professores como seus subordinados, onde a solução é a punição e a lei é a máxima, pode criar um clima insuportável dentro da escola. Desmotiva, cria conflitos, as coisas emperram. Logo, o diretor é capaz de fazer da escola e da relação com os professores uma relação de respeito, compreensão e suporte, ou pode motivar uma guerra ou uma insurreição dentro da escola.
Enfim, acredito que cada jardim tem o seu verde especial de acordo com os olhos de quem vê. Os meus, por exemplo, percebem muito mais brilho agora, porém sei que o jardim do outro lado do muro pode até me parecer meio pálido, mas não deixa de ser importante e verde aos olhos de outros.
Obs: texto não revisado.