segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Pensando..


Tá doendo bastante.  Talvez seja como me disseram: é como paciente em estado terminal. Você sabe que não tem mais jeito, que a pessoa está sofrendo, mesmo assim você não quer que ela morra. E quando o inevitável acontece sentimos muita dor. É como estou me sentindo. Mesmo sabendo que o relacionamento não ia bem, não me fazia feliz, tendo racionalmente motivos para o rompimento, ainda me sinto absolutamente triste com o fim.
Normal, né. Eu sei.

A gente se envolve, se esforça, se dedica, faz planos, cria expectativas. Normal se sentir frustrado quando a coisa não funciona como gostaríamos que tivesse funcionado. Fora que romper com aquela rotina, aquele hábito de ter um relacionamento não é fácil. A gente fica sentindo um vazio, se sente deslocado na própria vida. E pra ajudar eu terminei a monografia, que me ocupava o tempo e as ideias. Aí dá um certo desespero quando você se vê diante de tanto tempo livre.

Daí a gente precisa reformular tudo. Repensar os sentimentos, reelaborar as memórias (não quero sentir dor quando me vier algo me lembre nós dois, ou quando reencontrá-lo), refazer minha rotina, incluir novas atividades e dar novo sentido à vida. Como diz num livro muito bom que li "A transformação da intimidade" de Anthony Giddens, é preciso refazer as narrativas do eu. Mas isso só acontece depois de um período de luto. Você precisa se permitir sentir dor e sofrer, e só depois está pronto para dar o adeus e refazer o próprio mundo, incluindo as reflexões e aprendizagens que resultaram do momento anterior.

Sabe o que eu odeio? Quando me falam "ah, que pena, mas não fica triste, você vai encontrar outra pessoa..." Caraleo! Isso me deixa puta. Não quero que minha felicidade seja absolutamente atrelada à "ter um relacionamento sério". Não quero ter a "síndrome da princesa" que só se sente feliz, realizada quando encontra seu príncipe encantado. Quero ser feliz no desenvolvimento do meu eu, da minha individualidade, da minha identidade.

Não to dizendo com isso que acho que as pessoas possam ser felizes vivendo absolutamente sozinhas. De jeito nenhum. A solidão do eu não traz alegria a ninguém. Mais do que nunca percebi que somos mesmo animais sociais. Que somos chamados de "ser social" não por acaso, ou de forma puramente conceitual, abstrata. E não é só porque vivemos em sociedade também. Mas porque o nosso próprio "eu" só se faz na relação com "os outros". É a relação com o outro que me torna humana. Não, não é o conhecimento por si só, não são as ideias, e muito menos as "coisas" por si só. O conhecimento do mundo não vale de nada se não nos torna mais humanos, isto é, se não nos torna mais capazes de olhar para o outro com sensibilidade, com humanidade, se não nos torna capazes de compreender o outro e aprender com ele, com sua história, suas experiências, seus saberes, que são sempre tão diversos dos nossos. Cada pessoa é um mundo. Cada pessoa tem sua história, suas experiências de vida, que fazem com que ela tenha sentimentos, desejos, dores, anseios, angústias, medos, alegrias e formas diferentes de reagir às coisas da vida. E se relacionar com alguém é penetrar nesse mundo que é diferente do seu, é se interessar pelo outro e por tudo aquilo que o faz ser ele e não outro qualquer. E ao mesmo tempo é estar disponível, é estar aberto e permitir que a outra pessoa também adentre o seu universo. O relacionamento é uma troca constante, não tem como ser diferente. Claro que nesse contexto a gente precisa preservar nossos momentos de autonomia, mas essa troca é fundamental. É fácil amar a aparência. Difícil é continuar gostando quando conhece as incongruências do outro. Mesmo porque elas despertam as contradições nossas próprias. Nunca o meu trabalho sobre o hedonismo fez tanto sentido:

A crescente atitude hedonista que se apresenta na sociedade atual reforça o isolamento no qual o individuo é lançado pelas relações sociais capitalistas. À medida que a sociedade se caracteriza pela divisão de classes, as relações sociais no interior dela são superficiais, configurando-se como reificadas por se fundamentarem no interesse, classificando as pessoas através da lei do valor capitalista. As relações pessoais não reificadas, que permitem ao indivíduo um maior envolvimento com o outro, levam consequentemente à essência. Esta, marcada pela imperfeição, desperta no individuo sentimentos como decepção e insegurança, fazendo-o fugir dessas relações, pois estas requerem abrir mão da felicidade que as relações imediatistas, característica do hedonismo, oferecem, reforçando o isolamento do indivíduo.

Creio, posso estar errada, que foi aí que sucumbiu meu relacionamento. Mas isso é outra história. O fato é que nossa vida só ganha sentido nessa troca constante. Ela não precisa necessariamente acontecer em forma de um relacionamento tradicional e tals, mas são relações com os outros em geral. Com a família, os amigos, as pessoas que nos cercam. No final, são as coisas mais importantes, e únicas capazes de nos trazer a tão prometida felicidade. Mas é preciso ter paciência, carinho e não se assustar com as decepções e tristezas que frequentemente essas relações nos causam. A solução não é fugir delas. Mas aprender com elas.

Essa reflexão não está concluída, certamente.
Mas encerro, por hoje, com uma música:, sensível, só pra acalentar o coração:


A Idade do Céu

Paulinho Moska

Não somos mais
Que uma gota de luz
Uma estrela que cai
Uma fagulha tão só
Na idade do céu...
Não somos o
Que queríamos ser
Somos um breve pulsar
Em um silêncio antigo
Com a idade do céu...
Calma!
Tudo está em calma
Deixe que o beijo dure
Deixe que o tempo cure
Deixe que a alma
Tenha a mesma idade
Que a idade do céu...
Oh! Oh!...Oh! Oh!
Não somos mais
Que um punhado de mar
Uma piada de Deus
Um capricho do sol
No jardim do céu...
Não damos pé
Entre tanto tic tac
Entre tanto Big Bang
Somos um grão de sal
No mar do céu...
Calma!
Tudo está em calma
Deixe que o beijo dure
Deixe que o tempo cure
Deixe que a alma
Tenha a mesma idade
Que a idade do céu
A mesma idade
Que a idade do céu...






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