terça-feira, 29 de abril de 2014

O que aprendi

Porque no mínimo alguma coisa a gente sempre aprende...


É duro quando arrancam de nós algo pelo qual lutamos para conquistar. Quando roubaram meu carro na porta da escola onde trabalho eu entrei em choque. Os sentimentos se embaralharam - revolta, culpa, tristeza, impotência, abandono, medo.

Mas o primeiro sentimento que, comumente, nos vem nessas horas é a raiva - e o desejo de que aqueles que o fizeram tenham o que mereçam: o devido castigo. E quanto mais doloroso for, melhor.

Demorei em conseguir organizar o pensamento e os sentimentos. Colocá-los no lugar novamente custou um tanto. Mas aprendi algumas coisas importantes nesse meio tempo. E, como sempre, com pessoas.

Foi de uma senhorinha de quem ouvi, com surpresa, o seguinte conselho: não lhes deseje castigo, mas que consigam condições melhores de vida pra que não seja mais necessário fazer aquilo.

O tal conselho, ou melhor, reprimenda, me recordou de algo que eu não deveria esquecer. O fato de que as condições de vida acabam empurrando muitos dos nossos jovens ao mundo do crime, como saída mais imediata da esfera de privações em que vivem e inserção ao mundo do consumo do qual somos bombardeados a todo momento. Quando olho para o local onde trabalho - aquele universo de cohabs - onde há muita gente e pouca ou quase nenhuma estrutura, nenhum trabalho, postos de saúde ou hospitais descentes, sem áreas de lazer, esporte, cultura, com escolas que mais parecem prisões, difícil acesso às áreas centrais da cidade... Daí eu percebo: dessa gente quase tudo já foi tirado... Nossas perifeiras sofrem do mais descarado descaso da parte dos governos. Logo, naquela região – e também na qual eu moro - o problema não é apenas de segurança, mas especialmente social. A precariedade de vida, a miséria material e espiritual a qual muitas  dessas pessoas são condenadas, o estado de abandono são os principais responsáveis pelos altos números que caracterizam a violência nesses locais.


Portanto, se acredito ser justo alardear e reivindicar alguma providência dos governantes sobre o problema da violência que têm rondado as escolas da periferia – pois o meu foi apenas um caso entre os muitos que ocorrem toda semana nas zonas periféricas da cidade – pois então que reivindiquemos não apenas por segurança – sim, esta também é necessária, visto que muitos profissionais acabam se afastando e abandonando esses locais devido à insegurança e ao medo – mas também e especialmente por melhores condições de vida para quem mora nessas regiões: saúde e educação dignas, esporte, cultura, lazer, moradia, transporte. Dar oportunidade a esses jovens de poderem vislumbrar um futuro descente. Enfim, não é simplesmente de castigos que precisamos, mas de mais DIGNIDADE.

E, ainda que eu fique triste por terem levado meu carro, sinto-me feliz pela sorte que tive ao nascer numa família que, de acordo com as condições, puderam me oportunizar muitas coisas, inclusive estudar, ter uma profissão, um carro e muito mais...






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