Porque no mínimo alguma coisa a gente sempre aprende...
É duro quando arrancam de nós algo pelo qual
lutamos para conquistar. Quando roubaram meu carro na porta da escola onde
trabalho eu entrei em choque. Os sentimentos se embaralharam - revolta, culpa, tristeza,
impotência, abandono, medo.
Mas o primeiro sentimento que, comumente, nos vem
nessas horas é a raiva - e o desejo de que aqueles que o fizeram tenham o que
mereçam: o devido castigo. E quanto mais doloroso for, melhor.
Demorei em conseguir organizar
o pensamento e os sentimentos. Colocá-los no lugar novamente custou um tanto. Mas
aprendi algumas coisas importantes nesse meio tempo. E, como sempre, com
pessoas.
Foi de uma senhorinha de
quem ouvi, com surpresa, o seguinte conselho: não lhes deseje castigo, mas que consigam
condições melhores de vida pra que não seja mais necessário fazer aquilo.
O tal conselho, ou melhor, reprimenda, me
recordou de algo que eu não deveria esquecer. O fato de que as condições de
vida acabam empurrando muitos dos nossos jovens ao mundo do crime, como saída
mais imediata da esfera de privações em que vivem e inserção ao mundo do
consumo do qual somos bombardeados a todo momento. Quando olho para o local
onde trabalho - aquele universo de cohabs - onde há muita gente e pouca ou
quase nenhuma estrutura, nenhum trabalho, postos de saúde ou hospitais
descentes, sem áreas de lazer, esporte, cultura, com escolas que mais parecem
prisões, difícil acesso às áreas centrais da cidade... Daí eu percebo: dessa
gente quase tudo já foi tirado... Nossas perifeiras sofrem do mais
descarado descaso da parte dos governos. Logo, naquela região – e também na
qual eu moro - o problema não é apenas de segurança, mas especialmente social. A
precariedade de vida, a miséria material e espiritual a qual muitas dessas pessoas são
condenadas, o estado de abandono são os principais responsáveis pelos altos
números que caracterizam a violência nesses locais.
Portanto, se acredito ser justo alardear e reivindicar
alguma providência dos governantes sobre o problema da violência que têm
rondado as escolas da periferia – pois o meu foi apenas um caso entre os muitos
que ocorrem toda semana nas zonas periféricas da cidade – pois então que reivindiquemos
não apenas por segurança – sim, esta também é necessária, visto que muitos
profissionais acabam se afastando e abandonando esses locais devido à
insegurança e ao medo – mas também e especialmente por melhores condições de vida
para quem mora nessas regiões: saúde e educação dignas, esporte, cultura,
lazer, moradia, transporte. Dar oportunidade a esses jovens de poderem vislumbrar um futuro descente. Enfim, não é simplesmente de castigos que
precisamos, mas de mais DIGNIDADE.
E, ainda que eu fique triste por terem levado meu carro, sinto-me feliz pela sorte que tive ao nascer numa família que, de acordo com as condições, puderam me oportunizar muitas coisas, inclusive estudar, ter uma profissão, um carro e muito mais...
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