Doce sonho, suave e soberano,
Se por mais longo tempo me durara!
Ah! quem de sonho tal nunca acordara,
Pois havia de ter tal desengano!
Ah! deleitoso bem! ah! doce engano!
Se por mais largo espaço me enganara!
Se então a vida mísera acabara,
De alegria e prazer morrera ufano,
Ditoso, não estando em mim, pois tive,
Dormindo, o que acordado ter quisera,
Olhai com que me paga meu destino!
Enfim, fora de mim ditoso estive.
Em mentiras ter dita, razão era,
Pois sempre nas verdades fui mofino.
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Horas breves de meu contentamento,
Nunca me pareceu, quando vos tinha,
Que vos visse mudada tão asinha
Em tãos compridos anos de tormento.
As altas torres, que fundei no vento,
Levou, enfim, o vento que a sustinha:
Do mal, que me ficou, a culpa é minha,
Pois sobre coisas vãs fiz fundamento.
Amor com brandas mostras aparece,
Tudo possível faz, tudo assegura;
Mas logo no melhor desaparece.
Estranho mal! Estranha desventura!
Por um pequeno bem que desfalece,
Um bem-aventurar, que sempre dura!
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[Camões - 200 Sonetos]
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