quarta-feira, 6 de março de 2013

Adeus, Chorão.


Fiquei realmente triste com a notícia.

Mais do que com a morte do Hugo Chaves? Sim, é obvio.

Nossa, que tipo de socialista é você!

Vou dizer: sou do tipo que sente.

Me acham pouco refinada?

Sou apenas de uma geração carente de ideias, de poesia

Sabe assim, quando você é jovem e se sente perdido num mundo maluco e injusto e sem saída

Quando você é jovem e a escola é uma prisão

E você sente coisas que não entende

E você vê coisas que ninguém te explica

E tudo parece um caos

Sabe?

Nesse momento delicado da  vida a poesia do Chorão acalentava o coração

Traduzia minha indignação

Minha confusão

E minha força

Suas baladas embalaram meus dias de adolescente

E eram sensíveis

E eram revoltadas

E qual adolescente não carrega em si essas angústias?

Minha geração teve poucos grandes artistas, poetas

Teve pouca gente sensível e que pensava

Chorão com o Charlie Brown Jr. foi um desses poucos

Que conseguiu traduzir tão bem os sentimentos de uma juventude contemporânea tão órfã

Tão sem perspectivas, ideais

Que se defrontava com um mundo de cão

Sem sequer a esperança de uma transformação num horizonte longínquo

Não. Para nossa geração o mundo foi apresentado assim: é isso e fiquem bem feliz porque já foi pior!

Deem valor!

Rebeldes sem causa!

E assim era.

E assim ainda é.

O Chorão nos mostrava que não estávamos absolutamente sós.

E que se revoltar era necessário.

Triste eu estou hoje.



A arte só tem alguma razão quando tem a capacidade de traduzir sentimentos humanos, sentimentos de uma época, sentimentos de uma geração.  Ela precisa nos elevar a outro patamar. Precisa mostrar que nossas angústias não são únicas, não são subjetivas simplesmente, não são por acaso. Que elas expressam algo coletivo, algo que não está apenas em mim. Algo que é genérico, que tem a ver com comunidades humanas. A arte nos eleva ao gênero, nos une aos nossos semelhantes, nos faz compreender um pouco mais da aventura humana. Podem me dizer que o Chorão não foi genial como as lendas do rock brasileiro, como Cazuza, como Renato Russo. Mas, esperem, esses viveram em outro momento histórico. O clima era outro. Os ideais ainda ferviam. Numa época na qual eu cresci, anos 90, parecia que tudo já estava resolvido. Olhávamos a nossa volta e quando víamos as injustiças nos diziam para não nos preocupar porque o mundo já tinha sido muito mais cruel, que nós éramos privilegiados. Eu, particularmente, me sentia tão perdida, tão sem perspectiva, sem rumo, sem ideias, sem motivos, sem respostas. Eu percebia que havia algo muito errado na sociedade. Mas insistiam em me falar que essa era a melhor que poderia ser. Pois enquanto eu não entendia nada as músicas acalmavam meu coração. Essas que me faziam pensar um pouquinho que fosse. Apenas na faculdade as coisas começaram a fazer sentido. Só quando entrei em contato com as ideias marxistas, só assim percebi que nós merecemos e podemos forjar um mundo diferente, mais humano. E só por isso, por esse caminho, me considero socialista hoje. Entende o quanto a transformação deve estar ligada, também, à sensibilidade?! Os sensíveis às misérias humanas me tocam, seja pela música, pelos escritos, pelas atitudes. Porque cada um luta com as armas que tem!




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