domingo, 24 de janeiro de 2010

Infância

As aulas da Aglaé me fizeram lembrar da minha infancia e perceber, puxa!, como fui uma criança privilegiada. Tendo como ponto de partida a idéia de que o desenvolvimento da criança se dá através da  interação com o meio onde ela vive, com as pessoas, dos estímulos que ela recebe... ao lembrar da minha infância notei que a qualidade dessas interações foi muito boa.


Veja só, a começar pelos pais, os primeiros modelos de uma criança. Meus pais eram leitores, convivi desde a mais tenra idade com livros, revistas, jornais; eram apreciadores da música e, apesar do sertanejo zezé di camargo da minha mãe (rs, maldade, pois, apesar de tudo, faz parte da cultura!), meu pai gostava de boas músicas... e como ouvíamos música! O que não faltava em nossa casa de dois cômodos eram discos, rádio, fitas cassetes... com 5 anos eu tinha os meus próprios vinis e já usava o aparelho de som. Ainda vivi em meio às críticas do meu pai quanto à programação da Tv e também sobre a alienação que causava a religião. Meu pai também desenhava muito bem e eu era louca por seus desenhos, imitáva-os e logo também passei a desenhar.


E brinquei! Como brinquei! Tinha muitos jogos de encaixe, blocos de construção, quebra-cabeças, além de bonecas e casinha de bonecas. Mas gostava mesmo era de colocar os sapatos e colares da minha mãe e fingir que era gente grande... bem disse La Taille, "a criança não deseja nada além do que não ser mais criança."

E não posso deixar de enfatizar o papel fundamental dos meus avós maternos no desenvolvimento, tanto do raciocínio lógico-matemático, como até na aprendizagem da escrita e leitura. Meu avô era um jogador nato, desde muito pequena me ensinou a jogar baralho, de início os jogos eram baseados nas cores e nos nypes das cartas, depois nos números e nas combinações. Jogávamos burro, roba-monte, pife, e vários outros. Minha avó jogava comigo jogo das varetas, dominó, jogo da memória, que eu adorava, por sinal, palitinho e três marias com as pedrinhas do aquário! Logo aprendi a jogar damas e tínhamos campeonatos de damas em casa. Antes de ir às compras ela sentava comigo e escrevíamos juntas a lista de compras, além de ajudá-la a anotar as receitas dos programas de culinária e até ler a bíblia! Para quem não tem noção pensa que isto são coisas completamente banais, mas para o desenvolvimento de uma criança são experiencias muito ricas que proporcionam aprendizagens muito significativas. Os jogos são ótimos para estimular o raciocínio lógico, a atenção, concentração, a capacidade de resolver problemas, enquanto as atividades de leitura e escrita em sua mais pura essência, ou seja, como prática social, permite a criança a entender a importância que a lígua escrita tem em nossa sociedade. E o melhor de tudo é saber que meus avós fizeram tudo isso sem ter idéia do quanto estavam proporcionando para o meu desenvolvimento. Devo muito a eles.


Desde que aprendi a escrever fui muito estimulada pela minha mãe, que me dava cadernos, diários, livros e apreciava muito tudo o que eu escrevia. Não foi a toa que escrever virou uma brincadeira. Adorava inventar historinhas e escrevê-las, minha mãe me achava uma gênia rsrs e guarda até hoje alguns dos meus primeiros escritos. Não, realmente não eram tão bons, mas acho que eu acreditava tanto na minha mãe que continuei a escrever rsrs! O que não faz um estímulo...

Fora que adorava inventar. Estava sempre inventado brincadeiras, criando e modificando as já conhecidas. Tínhamos, eu e meu primo Victor, um quarto de brinquedos na casa da minha avó paterna, onde morei até os 10 anos. Neste quarto tinha tudo que uma criança haveria de querer, o que na verdade nem era tanta coisa, os brinquedos meus e do Vi juntos, mas, para nós, Uau, um mundo de possibilidades!

Possibilidades... eu realmente tive muitas. E tudo isso me fez pensar que a grande maioria das crianças não tem um terço dessas oportunidades e, neste sentido, o quanto a escola tem um  papel fundamental a cumprir na vida dessas crianças. A escola tem como dever oferecer  todas estas possibilidades de desenvolvimento que a elas são negadas no meio familiar e social. E quão fundamental é a tarefa de um professor de crianças pequenas, pois é ali, na infãncia que está muito do que elas virão a ser no futuro.

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